O universo das criptomoedas vem conquistando cada vez mais espaço no Brasil e no mundo. Desde 2022, vimos avanços e retrocessos, mas nunca antes tivemos uma base tão sólida para garantir segurança e transparência ao mercado digital. Em fevereiro de 2026, o Banco Central (BC) implementou uma série de normas que mudam completamente o panorama das moedas virtuais no país.
Este artigo explora o estado atual da regulamentação, as principais exigências para instituições, as novas obrigações dos investidores e as perspectivas que se abrem para quem deseja navegar neste ecossistema de forma informada e responsável.
Estado Atual da Regulamentação
No dia 2 de fevereiro de 2026 entraram em vigor três resoluções-chave do BC:
- Resolução BCB nº 519: cria o conceito de Sociedades Prestadoras de Serviços de Ativos Virtuais (SPSAVs), impondo requisitos de governança e controles internos.
- Resolução BCB nº 520: estabelece processos de autorização e prazos de transição para o novo regime.
- Resolução BCB nº 521: enquadra operações com stablecoins como operações de câmbio.
Adicionalmente, a Resolução nº 548 (19 de fevereiro de 2026) fixou os prazos para análise de pedidos de autorização, acelerando o cronograma de adequação.
Com essas medidas, o BC passa a tratar o mercado cripto como parte integrante do sistema financeiro, impondo governança e controles internos semelhantes aos bancos tradicionais. O objetivo central é criar um ambiente mais estável, atraindo investidores institucionais e reduzindo os riscos associados a fraudes ou colapsos.
Proteção ao Investidor e Segregação Patrimonial
Um dos pilares da nova regulação é a proteção efetiva aos investidores. As prestadoras de serviços de ativos virtuais (PSAVs) devem separar totalmente o patrimônio da empresa dos criptoativos dos clientes, evitando situações de conflito de interesse ou insolvência cruzada.
- Carteiras distintas para clientes e uso próprio da empresa.
- Auditorias independentes bienais com relatórios públicos.
- Provas de reserva que atestem a existência dos ativos.
- Diretor responsável pela segregação patrimonial.
- Contas individualizadas em nome de cada cliente.
Além disso, certificação técnica independente passa a ser obrigatória, verificando requisitos como segregação patrimonial e prova de reservas. Essas medidas visam restaurar a confiança após episódios como o colapso da FTX, em 2022.
Autorização e Supervisão do Banco Central
Para operar legalmente, todas as empresas do setor precisam obter autorização do BC. As SPSAVs serão submetidas às mesmas regras de bancos e corretoras, incluindo:
- Governança corporativa rigorosa.
- Políticas de compliance e prevenção à lavagem de dinheiro.
- Segurança cibernética aprimorada.
- Transparência nas relações com clientes e prestação de informações.
Instituições já autorizadas como CTVMs (Corretoras de Títulos e Valores Mobiliários) não precisam de pedido formal: basta entregar declaração de auditor independente em até nove meses.
Enquadramento de Stablecoins como Operações de Câmbio
As stablecoins – criptoativos atrelados a moedas fiduciárias – agora são tratadas como operações cambiais. Isso significa:
- Supervisão direta do Banco Central para transferências internacionais.
- Limite de US$ 100 mil por operação quando a contraparte não é instituição autorizada.
- Obrigatoriedade de identificação de donos de carteiras autocustodiadas.
- Monitoramento sistemático da origem e destino dos recursos.
Para 2026, o BC planeja aprofundar as regras para stablecoins, oferecendo maior segurança ao uso dessas moedas em pagamentos e remessas.
Transparência e Reporte de Operações
A partir de 4 de maio de 2026, todas as operações internacionais com ativos virtuais devem ser reportadas ao BC. Os prestadores de serviços enviarão:
- Detalhes do valor e finalidade das transações.
- Dados sobre contrapartes e países envolvidos.
Essas informações integrarão as estatísticas oficiais de câmbio e capitais estrangeiros, permitindo que o Brasil tenha dados precisos e atualizados sobre fluxos internacionais de criptoativos.
Regulação pelo Sistema DeCripto da Receita Federal
Em 2026, a Receita Federal lançou o sistema DeCripto para a declaração de criptomoedas, alinhando-se a padrões internacionais. Flávio Correa Prado, auditor da Receita, classificou as mudanças como uma das maiores transformações no monitoramento de ativos digitais no país.
O novo módulo categoriza operações em:
- Cripto-fiduciárias (compra e venda).
- Cripto-cripto (permuta).
- Transferências (entrada e saída).
- "Transfer out" para carteiras sem identificação.
O padrão técnico único facilita a adoção por empresas que já operam em outros países. Até 30 de junho de 2026, vigora o modelo atual; em julho, exchanges devem migrar ao DeCripto via e-CAC.
As prestadoras de serviços reportarão mensalmente independentemente de valor, enquanto pessoas físicas ou jurídicas declararão operações sem intermediação acima de R$ 35 mil.
Impacto para Investidores e Futuro do Mercado
Com essas regulamentações, o Brasil se posiciona como um dos países mais avançados em governança de criptoativos. As principais consequências para investidores são:
- Maior segurança jurídica e proteção patrimonial.
- Acesso a instituições auditadas e transparentes.
- Redução de riscos de fraudes e colapsos.
- Obrigações de compliance que elevam o padrão do setor.
Para operar com confiança, o investidor deve optar por plataformas autorizadas, verificar relatórios de prova de reservas e manter registro organizado das próprias operações para fins fiscais.
Além disso, a perspectiva é de que o Brasil atraia investimentos institucionais, impulsionando inovações em finanças descentralizadas (DeFi), tokenização de ativos reais e novos modelos de negócios baseados em blockchain.
Em suma, as mudanças de 2026 representam um grande salto rumo a um mercado de criptomoedas mais robusto e confiável. Cabe a cada participante – reguladores, prestadores de serviços e investidores – atuar de forma coordenada para consolidar esse novo capítulo da era digital financeira.
Referências
- https://www.infomoney.com.br/onde-investir/bc-define-regras-para-o-mercado-de-criptomoedas-no-brasil-veja-o-que-muda/
- https://exame.com/future-of-money/receita-federal-cria-novas-regras-para-declaracao-de-cripto-em-2026-veja/
- https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2025-11/banco-central-estabelece-regras-para-o-mercado-de-criptoativos
- https://portaldobitcoin.uol.com.br/regras-do-bc-para-criptomoedas-comecam-a-valer-nesta-segunda-veja-o-que-muda/
- https://www.trendsce.com.br/2026/02/20/bc-autorizacao-de-exchanges-de-criptomoedas-tera-prazo-de-ate-3-anos/
- https://www.gov.br/fazenda/pt-br/assuntos/noticias/2025/novembro/receita-federal-atualiza-regulamentacao-de-criptoativos-para-adapta-la-ao-padrao-internacional
- https://bcb.gov.br/detalhenoticia/20918/nota
- https://br.tradingview.com/news/cointelegraph:5131077bdbc81:0/
- https://bpmoney.com.br/brasil/bc-da-ate-3-anos-para-autorizar-plataformas-de-criptoativos/







